sábado, 26 de dezembro de 2015

Zero VS Ranned

Zero aterrou no cimo de um dos prédios. As chamas dançavam por entre cortinas densas de fumo destruindo as dezenas de edifícios milenários de Marble Bridge.
- Few… Isto está muito pior que pensava… - tirou o casaco e limpou a testa húmida. Bi-bip! – Sim Roger? Cheguei. Consegues-me ouvir?
Bi-bip!
-Tudo ok Zero!
- Eheh… quando disseste que havia “um incêndio” na cidade, não mencionaste que mais de três quartos da cidade estavam em cinzas! – disse enquanto tirava macacos negros do seu nariz.
- É… o gajo está em chamas, literalmente! Queres que te envie as coordenadas?
- Neh, podes ir tomar o teu café, já o tenho debaixo de olho. Vemo-nos no quartel! – bi-bip!
- Vê lá se te queimas princesinha!- bi-bip.
As suas botas mecânicas desdobraram-se num jato flamejante que o dispararam para os ares até a uma praça, onde se alapava um homem magro de cabelo comprido e oleoso, vestido de trapos pintados a carvão.
- Já passou a birrinha? – perguntou Zero tirando um charuto do bolso. O homem levantou-se lentamente. – Estão helicópteros a chegar, quer seguir-me calmamente com estas algemas postas ou prefere ir inconsciente?
Virou a cabeça para trás mantendo o corpo imóvel. Seis dentes dourados cintilavam num sorriso mórbido e enrugado.
- Eh…eh…eh…s-sai…
- Senhor, acabou de provocar o maior massacre da década… não aconselhava muito aumentar ainda mais a sua senten…
- Saaaaaaaai!! – gritou de forma animalesca enquanto as peles das costas rasgavam e as suas vértebras estremeciam violentamente. Quatro canhões massudos e oxidados saíram engatados às suas costelas.
- Ah boa! Estava mesmo a precisar de um isqueiro!
-Silêncio!! – guinchou de pescoço irrigado de veias carnudas, disparando uma tempestade de chamas.
Zero desapareceu de forma quase fantasmagórica. Estava agora atrás dele, encostado a uma parede aspirando a primeira nuvem do seu charuto.
- Uau! Mais um centímetro e era completamente vaporizado! Mas tinha mesmo que o acender.
- Hein? Como?!
- Não sou de perder muito tempo – expirou – puxas uma?
O homem rangeu os dentes.
- Cabrão… - sussurrou – Gaaaaaaah!! – As suas peles ondulavam por todo o seu corpo enquanto a sua maxilar se desagarrava da face e outro canhão lhe saia da boca como uma borboleta a sair de um casulo.
- Minha nossa… - disse Zero arrepiado.
Este era prateado com cupidos demoníacos gravados. Brilhava como se nunca tivesse sido usado antes. Pregou as suas unhas ao chão, que começou a tremer violentamente fazendo saltar blocos pedra e estilhaçar todos os vidros que se encontravam nas redondezas. As pupilas de Zero dilataram. Este ia ser grande. Fisgou-se para o meio dos ares num salto elástico e extenso. Uma muralha de labaredas maciças varreu tudo na sua passagem.
- Mas que abominação é esta?!... – pensou ainda em queda livre – Bom, vamos ter que tomar medidas…
Fios de luz azul serpenteavam pelos interstícios das suas luvas de titânio num som robótico e agudo.
- Estiramento espacial: Trampolim cinético! - murmurou de mãos esticadas atrás das costas. O espaço distorceu-se rapidamente num círculo de imagens contorcidas, lembrando um trampolim, que num ressalto propulsionou Zero a uma velocidade estonteante. Voava como um míssil de punho bem cerrado – Já foste cabeça de lata!
O murro caiu como um meteorito, deixando uma cratera funda e quente.
Cluck! Zero estalou o ombro enquanto se levantava do chão. Não é possível! Ele desviou-se! O homem estava ali, a uns metros dele.
- Eheheh! Como ousas subestimar o meu poder? Hein?!
Zero apenas olhava para o chão, imóvel, de olhos escondidos atrás da franja despenteada.
- Então? Já desististe? É tudo o que tens?! Não tens hipótese! Gahahahah!!
- O… o meu charuto…
- Hein?
- ESTRAGASTE O MEU CHARUTO!! – gritou estridentemente de olhos negros de ódio.
O homem congelou. O seu plano maléfico, a sua vingança contra o seu país… o seu objetivo de vida! Tudo isso se transformara numa discussão de café.
Zero desapareceu numa fração de segundo.
- Merda… onde é que ele está?? Que demónio é este?!
Carimbou-lhe um murro na barriga. Um repuxo de sangue saiu-lhe por entre os dentes.
- Era um clássico…
Uma joelhada no queixo.
- Dr. Fulrick…
Pegou-lhe pela gola da camisola.
- 1880!!
Atirou-o para o chão.
Caído, pensava na sua vida. Não sentia o corpo. Apenas sentia o sangue quente a correr-lhe pelas queixadas abaixo. Via o céu castanho e as nuvens negras. Via as cinzas a cair. Via a sua vida arruinada. Estava a morrer. Mas o seu plano continuava mais vivo do que nunca! Ainda podia fazer alguma coisa.
- Posso não ter ganho esta batalha… - tossiu – mas isto ainda pode ser… um empate… - Zero nem se mexeu. – MORRE!! – cuspiu uma granada dourada para os ares. – Testemunharás o verdadeiro inferno! Gahahahah!
As luvas de Zero brilharam de novo – Estiramento espacial: Cúpula repelente! – Uma esfera transparente envolveu-o.
A granada detonou. Um tufão de fogo dominou a cidade inteira, transformando pedra em lava a quilómetros de distância. Era como se Zero estivesse no interior do sol. A cúpula manteve-se intacta. Zero aproximou-se lentamente do homem.
- Eh?! Como é que consegues? Porque é que me estás a proteger a mim também?!
- Não te estou a proteger idiota – disse num tom firme – apenas quero que morras pelas minhas mãos.
- Não! Espera! Eu…!
Zero pôs-lhe a mão à cara e levantou-o sem esforço. – Manipulação-tempo: Acelerador! – A face do homem envelheceu drasticamente, agora de olhos encovados, barba comprida e cabelo branco. Ligou o jato da sua luva metálica para um último murro. Em cheio no queixo… fiiiiiu a sua cabeça saltou como a rolha de uma garrafa de champanhe, saíndo da cúpula e desintegrando-se nas chamas. Tsss.
A explosão terminou. A carcaça decapitada jazia no chão. Zero estava pronto para chamar Roger de novo mas…
- Hein? O que é isto? – Olhou para o bolso das calças do homem. - … Dr. Fulrick? 1878! Golden Edition!! Perfeito!
Tirou um charuto da caixa e começou a fumar. Olhou para o céu.
- Ainda bem que não te deixei nas chamas! – sorriu.