Zero aterrou no cimo de um dos prédios. As chamas dançavam por entre
cortinas densas de fumo destruindo as dezenas de edifícios milenários de Marble
Bridge.
- Few… Isto está muito pior que pensava… - tirou o casaco e limpou a
testa húmida. Bi-bip! – Sim Roger? Cheguei. Consegues-me ouvir?
Bi-bip!
-Tudo ok Zero!
- Eheh… quando disseste que havia “um incêndio” na cidade, não
mencionaste que mais de três quartos da cidade estavam em cinzas! – disse
enquanto tirava macacos negros do seu nariz.
- É… o gajo está em chamas, literalmente! Queres que te envie as
coordenadas?
- Neh, podes ir tomar o teu café, já o tenho debaixo de olho. Vemo-nos
no quartel! – bi-bip!
- Vê lá se te queimas princesinha!- bi-bip.
As suas botas mecânicas desdobraram-se num jato flamejante que o
dispararam para os ares até a uma praça, onde se alapava um homem magro de
cabelo comprido e oleoso, vestido de trapos pintados a carvão.
- Já passou a birrinha? – perguntou Zero tirando um charuto do bolso.
O homem levantou-se lentamente. – Estão helicópteros a chegar, quer seguir-me
calmamente com estas algemas postas ou prefere ir inconsciente?
Virou a cabeça para trás mantendo o corpo imóvel. Seis dentes dourados
cintilavam num sorriso mórbido e enrugado.
- Eh…eh…eh…s-sai…
- Senhor, acabou de provocar o maior massacre da década… não
aconselhava muito aumentar ainda mais a sua senten…
- Saaaaaaaai!! – gritou de forma animalesca enquanto as peles das
costas rasgavam e as suas vértebras estremeciam violentamente. Quatro canhões
massudos e oxidados saíram engatados às suas costelas.
- Ah boa! Estava mesmo a precisar de um isqueiro!
-Silêncio!! – guinchou de pescoço irrigado de veias carnudas,
disparando uma tempestade de chamas.
Zero desapareceu de forma quase fantasmagórica. Estava agora atrás dele,
encostado a uma parede aspirando a primeira nuvem do seu charuto.
- Uau! Mais um centímetro e era completamente vaporizado! Mas tinha
mesmo que o acender.
- Hein? Como?!
- Não sou de perder muito tempo – expirou – puxas uma?
O homem rangeu os dentes.
- Cabrão… - sussurrou – Gaaaaaaah!! – As suas peles ondulavam por todo
o seu corpo enquanto a sua maxilar se desagarrava da face e outro canhão lhe
saia da boca como uma borboleta a sair de um casulo.
- Minha nossa… - disse Zero arrepiado.
Este era prateado com cupidos demoníacos gravados. Brilhava como se
nunca tivesse sido usado antes. Pregou as suas unhas ao chão, que começou a
tremer violentamente fazendo saltar blocos pedra e estilhaçar todos os vidros
que se encontravam nas redondezas. As pupilas de Zero dilataram. Este ia ser
grande. Fisgou-se para o meio dos ares num salto elástico e extenso. Uma
muralha de labaredas maciças varreu tudo na sua passagem.
- Mas que abominação é esta?!... – pensou ainda em queda livre – Bom,
vamos ter que tomar medidas…
Fios de luz azul serpenteavam pelos interstícios das suas luvas de
titânio num som robótico e agudo.
- Estiramento espacial: Trampolim cinético! - murmurou de mãos
esticadas atrás das costas. O espaço distorceu-se rapidamente num círculo de
imagens contorcidas, lembrando um trampolim, que num ressalto propulsionou Zero
a uma velocidade estonteante. Voava como um míssil de punho bem cerrado – Já
foste cabeça de lata!
O murro caiu como um meteorito, deixando uma cratera funda e quente.
Cluck! Zero estalou o ombro enquanto se levantava do chão. Não é
possível! Ele desviou-se! O homem estava ali, a uns metros dele.
- Eheheh! Como ousas subestimar o meu poder? Hein?!
Zero apenas olhava para o chão, imóvel, de olhos escondidos atrás da
franja despenteada.
- Então? Já desististe? É tudo o que tens?! Não tens hipótese!
Gahahahah!!
- O… o meu charuto…
- Hein?
- ESTRAGASTE O MEU CHARUTO!! – gritou estridentemente de olhos negros
de ódio.
O homem congelou. O seu plano maléfico, a sua vingança contra o seu
país… o seu objetivo de vida! Tudo isso se transformara numa discussão de café.
Zero desapareceu numa fração de segundo.
- Merda… onde é que ele está?? Que demónio é este?!
Carimbou-lhe um murro na barriga. Um repuxo de sangue saiu-lhe por
entre os dentes.
- Era um clássico…
Uma joelhada no queixo.
- Dr. Fulrick…
Pegou-lhe pela gola da camisola.
- 1880!!
Atirou-o para o chão.
Caído, pensava na sua vida. Não sentia o corpo. Apenas sentia o sangue
quente a correr-lhe pelas queixadas abaixo. Via o céu castanho e as nuvens
negras. Via as cinzas a cair. Via a sua vida arruinada. Estava a morrer. Mas o
seu plano continuava mais vivo do que nunca! Ainda podia fazer alguma coisa.
- Posso não ter ganho esta batalha… - tossiu – mas isto ainda pode
ser… um empate… - Zero nem se mexeu. – MORRE!! – cuspiu uma granada dourada
para os ares. – Testemunharás o verdadeiro inferno! Gahahahah!
As luvas de Zero brilharam de novo – Estiramento espacial: Cúpula
repelente! – Uma esfera transparente envolveu-o.
A granada detonou. Um tufão de fogo dominou a cidade inteira,
transformando pedra em lava a quilómetros de distância. Era como se Zero estivesse
no interior do sol. A cúpula manteve-se intacta. Zero aproximou-se lentamente
do homem.
- Eh?! Como é que consegues? Porque é que me estás a proteger a mim
também?!
- Não te estou a proteger idiota – disse num tom firme – apenas quero
que morras pelas minhas mãos.
- Não! Espera! Eu…!
Zero pôs-lhe a mão à cara e levantou-o sem esforço. –
Manipulação-tempo: Acelerador! – A face do homem envelheceu drasticamente,
agora de olhos encovados, barba comprida e cabelo branco. Ligou o jato da sua
luva metálica para um último murro. Em cheio no queixo… fiiiiiu a sua cabeça saltou como a rolha de uma garrafa de
champanhe, saíndo da cúpula e desintegrando-se nas chamas. Tsss.
A explosão terminou. A carcaça decapitada jazia no chão. Zero estava
pronto para chamar Roger de novo mas…
- Hein? O que é isto? – Olhou para o bolso das calças do homem. - …
Dr. Fulrick? 1878! Golden Edition!!
Perfeito!
Tirou um charuto da caixa e começou a fumar. Olhou para o céu.
- Ainda bem que não te deixei nas chamas! – sorriu.





