As chamas instalaram-se no quarto
dançando por todos os cantos até engolirem a minha mãe numa dentada feroz e a
transformarem instantaneamente num tufão de cinzas ardentes. O fumo invadiu
rapidamente o quarto impedindo-me de respirar ou de ver qualquer coisa… as
cinzas eram densas e pareciam estar a empurrar-me para fora do quarto… Eu e Lampent
fomos expulsos como se as chamas não quisessem ser incomodadas enquanto
devoravam algumas carcaças que tivessem sobrado da inceneração. A porta
fechou-se num estrondo. Era como se tivesse estado no inferno por uns segundos.
Voltar a abrir aquela porta deixou de ser uma das minhas intenções, tinha a
enorme sensação de que não ia sair de lá vivo se o fizesse.
Corri diretamente para fora de
casa sem saber ao certo para onde ir. Tinha que encontrar a minha irmã…
Lillipup rapidamente sentiu um cheiro e correu em direção ao cemitério perto de
minha casa. Segui-o enquanto Lampent me iluminava o caminho. Cheguei ao
cemitério, mergulhado em brumas brancas e frias. Via uma silhueta perto da
campa do meu pai. Sentia esperança, estava completamente convencido que era
ela, o que despertou em mim alguma alegria. Corri ainda mais depressa e a
silhueta desapareceu. Aproximava-me cada vez mais da campa do meu pai… até que
por fim cheguei. As brumas já não escondiam nada, pior, mostraram-me aquilo que
não queria ver. A minha irmã não estava lá e por alguma razão estava uma cova
grande e escura diante a sepultura dele. Olhei à minha volta e depois para
dentro da cova para ver se o meu pai tinha sido realmente desenterrado. Senti
dois braços a abraçarem-me atrás de mim… os braços estavam demasiado altos para
ser a minha irmã… paralisei… Uma das mãos deslizava lentamente pela minha
barriga e enfiou-se para dentro dos meus boxer… Um bafo quente humidificou-me a
bochecha esquerda num riso baixinho... Tirei o meu martelo do bolso… Cinco
segundos depois, Mr. Mime estava no chão com metade da face partida… Sangrava
da boca e notavam-se estilhaços de osso debaixo da sua pele a nadarem pelos
hematomas violeta. O seu sorriso provocador colapsou numa cara de ódio e nojo.
Usou o psíquico1 nele próprio para pôr os ossos da cara no sítio e
usou o recover2 para se
curar (devia ter copiado esse ataque de outro pokemon com o mimic3 uma vez que os mr. mime
não podem aprender o recover). A
cratera que lhe tinha pregado na cara transformou-se novamente numa bochecha
corada e rechonchuda. Chamei o Lillipup e o Lampent para me defender, mas Mr.
Mime projetou-me instantaneamente para dentro da cova, usando novamente o
psíquico. Tinha batido com as costas diretamente no fundo do buraco, e por isso
passei uns segundos sem conseguir respirar. Reparei que não estava nenhum
caixão dentro do buraco. Achei uma desonra para o meu pai, e enervei-me, tinha
sido ele a retirá-lo de lá, tinha a certeza. Tentei trepar mas não consegui. De
repente algo caiu-me em cima, mas não sabia o que era. Era bastante pesado e
cheirava mal… tentei tirar essa coisa de cima de mim, e senti madeixas de
cabelos longos a serpentearem pela minha cara… Era a minha vizinha… Sem olhos e
toda suja de terra. Tinha a barriga aberta, e órgãos a baloiçarem até aos
joelhos. Repugnado mandei o cadáver ao chão, assustando uma colónia de insetos
que hospedava o crânio vazio. Pedi ajuda ao Lampent para que me retirasse do
buraco usando também o seu ataque psíquico… mas nada aconteceu, apenas ouvia o
Lillipup a rosnar e o Mr. Mime a rir às gargalhadas, enquanto quilos de terra
choviam e me enterravam vivo…
1 Ataque telecinético
usado para por exemplo levitar ou deformar objetos, pessoas ou pokemon.
2 Capacidade utilizada
por pokemon para se autorregenerarem
3 Capacidade utilizada
para imitar ataques de outros pokemon.
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