Estava a lavar a louça com a
minha mãe… A cozinha parecia mais escura que o normal. O ambiente era pesado,
não se conseguia respirar muito bem… Os azulejos das paredes estavam baços e a
televisão não funcionava, apenas disparava sons agudos que me pareciam perfurar
o cérebro pelas orelhas dentro como uma agulha ferrugenta. Ninguém falava…
estávamos calados a esfregar os pratos sujos de centopeias esmagadas. O som da
televisão ficou cada vez mais agudo… mais centopeias me saiam de dentro das
mangas do casaco e a esponja do nada começou a drenar sangue frio como o gelo…
paralisei… A minha mãe, que estava ao meu lado, virou-se para mim com toda a
naturalidade a perguntar o que se passava… a sua pele estava esverdeada e cheia
de veias, e não parecia ter olhos… sorria para mim com todo o agrado. Deu-me
uma festinha na face com as suas unhas enormes e frias, era como se me
passassem uma forquilha na bochecha… Vomitei. Era o bolo de aniversário da
minha irmã, já semi-digerido… Tentáculos saiam de debaixo da saia da minha mãe
e pegaram-me com força pelos tornozelos e puxaram-me, limpando o vómito do
chão. Os tentáculos largaram-me, e os meus tornozelos estavam pintados de
hematomas escuros e dolorosos… levantei-me… estava na Reflection Cave1,
sempre escura e confusa. Olhei para um dos espelhos musgosos que jazia nas
paredes da caverna, e em vez de ver o meu reflexo… via um Mr. Mime a sorrir…
Morri. Acordei.
Era só um pesadelo, o meu coração
batia a toda a velocidade, e suores frios saiam por todos os poros do meu
corpo. Tinha os boxers mijados e tremia como um snorunt2. Acordei o
lillipup e fui buscar a pokebola do meu lampent3 (o meu único
pokemon). Ainda horrorizado fui a correr em direção ao quarto da minha irmã.
Tinha a face encharcada em lágrimas e os dentes doíam-me, talvez por os ter
rangido durante a noite. Cheguei ao quarto da minha irmã… ela ainda não tinha
chegado a casa… Fui direto ao quarto da minha mãe… Do fundo do corredor
ouvia-se o som de uma caixinha de música… Não podia mais… sentia-me ainda pior
que durante o sonho, parecia estar a sofrer de uma paragem cardíaca… Desta vez
não estava a sonhar. Cheguei à porta do quarto da minha mãe, e a música tocava
mais forte. O ar não podia estar mais pesado. A minha mão tocou na maçaneta e o
tempo parou… parecia estar a demorar uma eternidade para abrir a porta, parecia
mais densa do que nunca… a porta chiou num som arrepiante... acabou… Mandei o
grito da minha vida… O desespero corria-me nas veias lentamente e alimentava-me
o horror entranhado nos músculos e no peito… Lágrimas, baba e ranho
escorriam-me pela cara… soluçava a cada segundo que passava… Um varão de metal espetado
no chão perfurava-lhe o traseiro e saia-lhe pela boca… e, girava… como se fosse
uma bailarina de uma caixa de música… A minha mãe estava…banhada de sangue e
sem olhos… estava lívida… As gotas de sangue pareciam cair ao ritmo da música…
as paredes rachadas e húmidas não pareciam suportar tanto horror de uma vez. O
pesadelo começou...
1 Uma Cave em Kalos
2, 3 Ver pokemon no Google Imagens
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